sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Clarice Lispector

"Sou como você me vê,
posso ser leve como uma brisa,
ou forte como uma ventania,
depende de quando,
e como você me vê passar."

sábado, 25 de outubro de 2008

Iansã sopra a forja de Ogum

Oxaguiã estava em guerra, mas a guerra não acabava nunca, tão poucas as armas para guerrear. Ogum fazia as armas, mas fazia lentamente. Oxaguiã pediu a seu amigo Ogum urgência, mas o ferreiro já fazia o possível. O ferro era muito demorado para se forjar e cada ferramenta nova tardava como o tempo. Tanto reclamou Oxaguiã que Oiá, esposa do ferreiro, resolveu ajudar Ogum a apressar o fabrico. Oiá se pôs a soprar o fogo da forja de Ogum e seu sopro avivava intensamente as chamas e o fogo mais forte derretia mais rapidamente o ferro. Logo Ogum pôde fazer muito mais armas e com mais armas Oxaguiã venceu logo a guerra.

Oxaguiã veio então agradecer a Ogum. E na casa de Ogum enamorou-se de Oiá. Um dia fugiram Oxaguiã e Oiá, deixando Ogum enfurecido e sua forja fria.

Quando mais tarde Oxaguiã voltou à guerra e quando precisou das armas muito urgentemente, Oiá teve que reavivar a forja, mas não quis voltar para a casa de Ogum.

E lá da casa de Oxaguiã, onde vivia, Oiá soprava em direção à forja de Ogum. E seu sopro atravessava toda a terra que separava a cidade de Oxaguiã da de Ogum. E seu sopro cruzava os ares e arrastava consigo pó, folhas e tudo o mais pelo caminho, até chegar às chamas que com furor atiçava.

E o povo se acostumou com o sopro de Oiá cruzando os ares e logo o chamou de vento. E quanto mais a guerra era terrível e mais urgia a fabricação das armas, mais forte soprava Oiá a forja de Ogum. Tão forte que às vezes destruía tudo no caminho, levando casas, arrancando árvores, arrasando cidades e aldeias. O povo reconhecia o sopro destrutivo de Oiá e o povo chamava isso de tempestade.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Diário de Bordo: segunda página (Gaya)

Silêncio oco, início vazio. Espaço a ser preenchido...
Palavras, ruídos, objetos vivos. Variados recortes, exagerados detalhes.
E diante do incesante fluxo, infinitas possibilidades.
Onde nada se perde. Onde tudo se cria...
Os atabaques chamaram, e colorida de vermelho, ela se fez presente.
Eparrei mãe tempestade!

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Diário de Bordo: primeira página (Lucas)

Como todo encontro que é marcado, entre o momento do acerto da data e do horário, e o encontro propriamente dito, passam idéias, desejos, sensações e expectativas. Foi no segundo dia de aula de Prática de Direção que veio a primeira idéia. Trabalhar as energias dos orixás! Utilizar um mito e elementos da religião dos orixás para criar uma cena.

Uma experiência com a religião já estava encaminhada, desde criança freqüento e deixo de freqüentar uma casa-de-santo, em Santa Luzia. Tem cerca de um ano que leio os mitos dos orixás no livro do Prandi, leio sobre os arquétipos, sobre a música, a dança e as comidas que compõem as celebrações.

A escolha dos atores não foi aleatória, como estamos trabalhando com uma religião precisava de pessoas que tivessem um grande respeito e conhecessem ou tivessem vontade de conhecê-la.

Lendo os mitos e textos da disciplina e tentando criar uma metodologia de ensaios, parti de uma necessidade de recortar um tema que um mito nos trouxesse para ser discutido dialeticamente em cena. Os textos da disciplina me influenciaram completamente. Textos que falavam de afetos não-simbolizados, comunicação não-mediada e mimese corpórea, me fizeram entender o verdadeiro significado dos mitos, e o significado não era nada misterioso, pelo contrário piscava na frente dos meus olhos sem que percebesse.

301 é o número de mitos dos orixás, um número considerado infinito pela religião Ioruba, e cada um desses mitos nos oferece infinitas interpretações. Alguma semelhança com a cena pós-dramática? Sim, porém os mitos não possibilitam uma dialética.

Minutos antes do primeiro ensaio refleti sobre isso. Agora já sei que o grande desafio é retalhar essa característica do mito para que além de nos vermos no espelho, possamos ver outras realidades.

O primeiro encontro foi surpreendente. Com a idéia de começar a criar um repertório de ações,iniciamos com um aquecimento focado na respiração. Movimentos pequenos que iam aumentando de tamanho e velocidade, do plano baixo ao plano alto, acompanhados com toques de Angola.Começamos a compor, os atores escolheram 3 movimentos e os colocaram em seqüencia.
A fase seguinte era a mimese, utilizamos uma foto em que eles observariam os vetores da imagem. a foto 1 era uma filha-de-santo com vestimentas de yansâ. a foto 2 era um encarte de cd com instrumentos musicais. Pedi que os atores criassem uma imagem anterior e outra posterior a foto que foi mimetizada. Depois dei a possibilidade deles encaixarem os movimentos da fase anterior com os da fase de mimese.

Gaya, atriz que participa desse trabalho, criou rapidamente as sequências e ocupou a sala de ensaio com uma presença muito grande e forte. Tanto que Tomaz,ator, não conseguia se concentrar e avançar. Pedi que Tomaz avançasse mesmo não estando seguro, assim ele fez. Pedi para que Gaya saísse do campo de jogo e o observassem, focando a respiração e as qualidades de movimento.

Observamos a seqüencia de Gaya que haviam feito o exercício com os instrumentos musicais. Depois observamos a seqüencia de Tomaz, que estava relacionada a foto da filha-de-santo. Gaya entrou no espaço de cena e os dois fizeram as seqüencia simultaneamente. A conversa entre os dois foi do início ao fim.
O movimentos combinados com a música me afetaram de maneira assustadora, quase embarquei com os atores, a música acabou no momento em que os atores fizeram uma pausa.

Não havia mais a necessidade de continuar. Ficamos muito emocionados com o que aconteceu. Fizemos logo após o compartilhamento da experiência e a leitura de um mito de Iansã.

Iansã - Gilberto Gil

Senhora das nuvens de chumbo
Senhora do mundo
Dentro de mim
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Tempo bom, tempo ruim

Senhora das chuvas de junho
Senhora de tudo
Dentro de mim
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Tempo bom, tempo ruim

Eu sou um céu
Para as tuas tempestades
Um céu partido ao meio no meio da tarde
Eu sou um céu
Para as tuas tempestades
Deusa pagã dos relâmpagos
Das chuvas de todo ano
Dentro de mim
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Tempo bom, tempo ruim